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“Para viajar basta existir. ... Fernando Pessoa

18 de dezembro de 2009

Tashidelek!

Tibet, terra que mantem suas tradicoes, um vasto planalto de paisagens deserticas com altitudes entre 4000 e 5000 metros acima do nivel do mar. O ar e muito seco, quase nao ha arvores. Ha muitos rios gerados pelas geleiras que fazem possivel o cultivo de cereais e criacao de animais, sustento da maior parte da populacao.
Para entrar no Tibet atualmente e necessario uma permissao especial da Republica da China. No Nepal, o unico meio de obter essa permissao e atraves de uma agencia de turismo com um pacote organizado. Acertei um tour saindo de Kathmandu no Nepal a Lhasa no Tibet pela estrada com duracao de 7 dias.
Saimos de Kathmandu com o sol nascendo. Ja faz frio pela manha, mais frio do que quando cheguei no comeco de Outubro. E final de Novembro, o inverno esta chegando. Depois de umas 6 horas de estrada chegamos a fronteira e me despedi do Nepal. Trocamos o Namaste pelo Tashidelek, os vales verdejantes pela imensidao do deserto, as cachoeiras abuntantes pelos rios congelados.
Dia seguinte, acordamos as 7 para o cafe da manha e meu cerebro deu um curto circuito quando vi que do lado de fora ainda estava escuro.
A China mantem um horario para o pais inteiro, mesmo com a sua grandeza. Por isso, no extremo oeste o sol comeca a aparecer la pelas 8, 8 e meia da manha. Foi quando chegamos a uma das diversas passagens que iriamos atravessar pela estrada ate Lhasa. A primeira e Nyalam Pass (3800m) e a segunda e Lalung La Pass (5050m) ambas com lindas vistas das montanhas do Himalaia: Jugal Himal, Shishapangma, Cho Oyo, Lhotse, Makalu e o Everest. Algumas pessoas apresentaram mal de altitude, a maioria com palpitacao e dificuldade para dormir.
Passamos por Tingri, cidade de anciaos, muitos tibetanos em suas roupas tipicas e rostos enrugados pelo trabalho na lavoura em altitude. Demoramos a escolher o que comer com o novo menu. Dez minutos nao e suficiente, em quinze talvez apos reler o menu algumas vezes.
Em Xigatse localiza-se o famoso Tashilumpo Monastery, o nosso primeiro. Impressionante, cheios de imagens de buda e lamas, decoracao colorida e oferendas. Muitas. O povo despeja uma especie de manteiga sobre as velas acesas. Tudo se derrete formando uma imensa massa exalando um odor caracteristico que predomina o interior das salas. Em certas tigelas as mulheres despejam agua quente. Cada oferta tem seu lugar: mel, faixas brancas, cereais... a nao ser as notas de dinheiro. Elas estao em todos os lugares: nas grades, no chao, nos livros sagrados, ate em arvore tinha dinheiro colado no tronco.
O velhor bazar de Xigatse nao mostrou muita novidade (comparando com Kathmandu...) a nao ser pela seccao de carnes de ovelha onde a mercadoria e oferecida inteira sem a cabeca, couro e visceras. Eles "sentam" a peca como se estivesse esperando o comprador. Grotesco.
Deu tempo para um acesso a internet chinesa. A sala e imensa e impregnada pelo cheiro de cigarro. Como esse povo fuma! Em todos os lugares.
Gyantse foi a proxima cidade nao muito longe. Duas horas de viagem para visita ao Khumbum Chorten e Phalkor Monastery.
No quinto dia, depois de varias passagens de 5000 metros, glaciar Karo La e do grande lago turquesa Yandrok Tso chegamos finalmente a Lhasa.
Percebi os sinais de civilizacao como o aumento repentino de veiculos e pequenos edificios ao longo da estrada. Nao esperava a cidade que Lhasa se transformou. As avenidas sao grandes e encontramos lojas de todas grandes marcas. Ha lojas de cosmeticos que parecem com supermercados e supermercados que parecem lojas de departamento. Um verdadeiro choque, e eu preocupada se Lhasa tinha um sistema de correio decente para enviar parte de meus equipamentos de escalada que estavam pesando e ocupando espaco na minha mochila.
O hotel se mostrou o melhor de toda a viagem. Era uma antiga casa que recebeu uma bela reforma. Para a alegria de todos, o quarto era quente e ainda tinha aquecedor eletrico nas camas! A lampada do banheiro tambem ajudava na funcao de aquecer. Nao tinha mais medo de acordar no meio da noite e sair da cama quentinha para ir ao banheiro.
Saimos pelas vielas estreitas e nos deparamos com a peregrinacao ao redor do Jokhang Temple. Seguimos a massa que caminha no sentido horario. Na porta do templo, dezenas de pessoas realizam o movimento de ajoelha, deita, desliza maos e bracos a frente, encosta a cabeca no chao retornando com os mesmos movimentos a posicao inicial repetindo inumeras vezes, ciclicamente. Algumas pessoas passam o dia inteiro nessa pregacao fisica.
Foi inevitavel a chamada do grande Palacio de Potala que brilhava ao sol do entardecer no alto da cidade. Que emocao! Comovente estar de frente a essa maravilha da historia. A pele se arrepiou, os olhos brilharam, o queixo caiu.
So entramos no dia seguinte, com hora de visita marcada e limite de permanencia de uma hora la dentro. Das poucas salas que e permitido visita haviam os saloes grandes, pequenos para receber visitas e tumulos de ouro dos Lamas... muito ouro. De 500 a 3400 quilos de ouro com pedras turquesa e coral encrustadas, muita ostentacao.
Os monasterios Drepung e Sera ficam um pouco mais afastados do centro. No Drepung ha uma mandala para os turistas apreciarem. Ao vivo e impressionante. Mede cerca de 1,5 a 2 metros de diametro, todo desenhado com detalhes minimos em areia colorida em alto relevo. A "casa de buda" leva em torno de 4 meses para ser finalizada com horas diarias de dedicacao, para em um segundo... ser destruida, demonstrando o desapego. Um trabalho minuncioso, uma obra de arte.
No monasterio Sera pudemos observar a discussao dos monges. Eles sentam em grupos e discutem os ensinamentos dos livros sagrados. Um argumenta e faz questoes batendo a palma das maos. Interessante ver os monges tao exaltados e contra argumentando, ainda mais de pantufas de ursinhos. A sessao dura horas.
Encerramos nossa viagem pelo Tibet com um bom jantar com o grupo internacional: espanhois, alemaes, finlandeses, grego, belga e holandesa. Experimentei o tradicional cha tibetano de manteiga: cha com leite, manteiga e sal. Horroroso como todos disseram, todos os ocidentais. Eles tomam todos os dias...
Agora estou no trem mais alto do mundo. Uma obra da engenharia, foi inaugurado em 2006. Ha uma passagem de 5000 metros, altitude mais alta que um trem alcanca hoje em dia. Me despedi do Tibet apreciando pela janela os varios rebanhos de iaques e carneiros pastando nos campos abertos, os rios congelados e pequenas vilas espalhadas na imensidao do deserto.

2 comentários:

  1. Li a chamada pelo site Extremos. Virou correspondente internacional! hehehe

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  2. que texto longo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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