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“Para viajar basta existir. ... Fernando Pessoa
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22 de outubro de 2010

A Costa Norte do Peru


O cachorro peruano sem pêlos e topete loiro - Patrimônio Cultural do Peru

O norte do Peru abriga sítios arqueológicos interessantes e belas praias.

A dez quilômetros de Trujillo, a Huaca del Sol y La Luna são ruínas da cultura Moche que emergiu na costa norte do Peru entre os anos 100 D.C. a 800 D.C..
A Huaca del Sol é a maior pirâmide da era Pré-Colombiana das Américas. Os arqueólogos estimam que foram utilizados cerca de 140 milhões de tijolos para a construção que possuía uma altura de 50 metros. Cada tijolo possui uma marca diferenciando a comunidade onde foi fabricado, foram encontradas mais de cem marcas diferentes.


A pirâmide de Huaca del Sol hoje com 41 metros de altura

A Huaca de la Luna têm três plataformas que estão conectadas com quatro salões principais. As paredes estão decoradas com desenhos com as cores preta, vermelha, azul, branco e amarelo. Eram locais de rituais de sacrifício humanos cerimônias de enterro da elite.


Muros decorados de Huaca de la Luna

Passando para a cultura Chimú (850 D.C. a 1470 D.C.) ainda em Trujillo, a Huaca del Dragón é mais conhecida por Huaca del Arco Iris por suas paredes estarem adornadas com figuras em alto-relevo de serpentes sob um arco-íris, símbolo da fertilidade e das chuvas. Ao redor da plataforma principal existem 14 depósitos onde foram encontrados evidências de oferendas e esculturas de madeira.


As serpentes sob o arco-íris

Chan Chan foi a maior cidade da era Pré-Colombiana, capital do reino Chimor. Estima-se que a cidade possuía cerca de 30.000 habitantes e se estende por uma área de 20 quilômetros quadrados.


Muros de Chan Chan

Hunchaco fica a meia hora de Trujillo, uma cidade tranquila na costa do Peru. Possui uma praia boa para surf, porém com uma corrente ainda fria, nem tanto para se banhar nesta época do ano. Os pescadores ainda utilizam os tradicionais "caballitos de totora", pequenas embarcações feitas de junco que os turistas podem experimentar em um passeio pelo mar. O ideal é se alojar em Huanchaco para conhecer as ruínas de Trujillo. Foi o lugar perfeito para descansar depois de tanta escalada e caminhada.


Caballitos de totora em Huanchaco

Em Chiclayo, se encontra uma das maiores descobertas dos últimos trinta anos: o Senhor de Sipán. Talvez porque suas tumbas foram encontradas intactas com todas suas jóias e oferendas sem os normais saqueios das ruínas peruanas. Fez parte da cultura Moche e data do ano 100 D.C. Como os egípcios, acreditavam que a vida continuava após a morte, ele foi encontrado com mais de 400 jóias entre eles o peitoral, colares, brincos, capacete e braceletes feitos de ouro, prata, cobre e pedras semipreciosas. Com um supremo poder e estatura estimada em 1,67m (considerada alta para os padrões da época), foi enterrado com suas esposas, uma criança, o comandante militar, um vigia e até lhamas e um cachorro.


Réplica do Señor de Sipan no museo Tumbas Reales

Mancora têm praias, finalmente, com águas temperadas. Com uma mistura da corrente fria Humboldt vinda do sul e a corrente quente Niño, a temperatura da água fica em torno dos 24 graus Celsius, suficiente para transformar esse povoado às margens da rodovia Panamericana em um centro turístico com hotéis, restaurantes, feirinhas de artesanato e aulas de surf.


Pôr do sol em Mancora

O cachorro peruano sem pêlos e quase sempre banguela é considerado patrimônio nacional. Há evidências da existência da raça desde tempos antigos, é retratado em cerâmicas da cultura
Chavín (800 a.C.), Moche(600 d.C.), Wari (700 d.C.), Vicús (300 d.C.), Chimú (1100 d.C.), Chancay (1100 d.C.) e Inca (1450 d.C.).

Fontes e para saber mais:

www.huacas.com
www.wikipedia.org
www.sipan.perucultural.org.pe

20 de outubro de 2010

O Circuito Alternativo da Cordilheira Huayhuash



A caminhada ao redor da Cordilheira Huayhuash é conhecida por ser uma das mais deslumbrantes do mundo. O que presenciei só confirmou a fama desse trekking impressionante que possui pelo menos uma passagem acima dos 4500m por dia. Aliado a um grupo ousado e sintonizado, realizamos alguns caminhos alternativos proporcionando uma adrenalina extra a esta fascinante jornada.



Após minha tentativa frustrada de realizar o circuito alto por conta própria e quase dois meses escalando na Cordilheira Blanca, contratei uma agência para realizar o trekking. O grupo foi composto de dois espanhóis, Leire e Santi, dois irlandeses, Alan e Wayne, o guia-cozinheiro Toño e o arrieiro Severo.



Todos os caminhos alternativos indicados no mapa e mais alguns foram postos em prática. No final do primeiro dia de caminhada, depois de alguns contratempos e muita chuva de granizo, Toño, o guia cauteloso, chegou a declarar que deveríamos seguir pelo caminho normal nos próximos dias. No segundo dia, um outro grupo também seguiria pelo caminho alternativo. Sem argumentos, foi fácil seguir a não normalidade. No terceiro dia, ele entrou no espírito desbravador do grupo.



Mesmo quando não havia um caminho alternativo, "criamos" um. O desvio foi feito no intuito de não pagar a taxa de uma comunidade que cobra 35 soles pela passagem.



As comunidades por quais passamos cobram uma taxa, às vezes passamos por mais de uma por dia. A origem das taxas tem um histórico violento, no início dos anos 80, o grupo terrorista Sendeiro Luminoso utilizou as terras como base remota. Mesmo após sua derrota em 1992 ainda ocorriam roubos e até assassinatos na região. Em 2004 um roubo resultou na morte de um turista, as comunidades começaram a cobrar uma taxa de "proteção" para passar por suas propriedades e de fato algumas colocavam vigias nos acampamentos. Desde então, a região foi considerada segura.
Enquanto não há providências de força maior, fizemos valer nosso direito de ir e vir.



Por estar com transporte privado, acampamos o primeiro dia diretamente em Cuartelhuain. Começamos a caminhar somente no segundo dia. Logo após a primeira passagem Cacananpunta (4700m) nos desviamos à direita e descemos diretamente à lagoa Mitococha. Acompanhamos a beira da lagoa pelo lado esquerdo e subimos em direção ao fundo do vale. Alcançamos a passagem mas ficamos em dúvida, seguindo totens conseguimos atravessar um outro vale para descer em direção ao lago Carhuacocha. O acampamento tem uma bela vista dos picos Jirishanca, Yerupajá e já do Siula Grande.


Acampamento Carhuacocha: Siula, Yerupajá Grande e Chico e Jirishanca

No terceiro dia o caminho alternativo é mais conhecido e tivemos a companhia de um outro grupo. O caminho das "tres lagunas" Gangrajanca, Siulacocha e Quesillococha passa perto dos picos do Siula, Carnicero e Jurao. Acampamos na vila Huayhuash em um vale amplo e encantador.


Almoço com vista para as três lagoas

O desafio do quarto dia foi atravessar o Paso Trapecio (5010m) e alcançar a fascinante vista do Paso San Antonio. Depois de seguir mapa e totens à passagem Trapecio nos deparamos com duas opções. Toño dizia para descer, passar pela lagoa que avistávamos e depois ascender ao paso San Antonio novamente. Alan foi verificar alguma possível passagem por cima. Wayne foi atrás e os acompanhei montanha acima. Acabamos nos separando de Toño, Leire e Santi que seguiram por baixo. Alan encontrou uma ponte de terra no meio do glaciar e pudemos passar sem dificuldades. Começou a nevar. A terra sob os nossos pés formou um lodo que grudava nas botas e deixou nossas passadas mais pesadas. Cruzamos alguns trechos entre gelo e rochas até alcançar a crista para mais uma vista fantástica. Ouvimos uns berros e vimos três figuras em uma outra passagem ao longo da crista bem abaixo. Tínhamos subido muito além! Levamos um tempo para reunirmos o grupo novamente.



Cansados, descemos um vale interminável até encontrar Severo que nos esperava com o acampamento armado em Huanacpatay. Ouvimos de um espanhol que desapareceu nessa região, infelizmente alguns dias depois encontraram seu corpo. Ele havia caído de um abismo de 100 metros.

Dia seguinte, quinto dia de trilha, continuamos a descer o vale, mas antes de cruzar com o povoado de Huayllapa, Alan e eu subimos pela montanha para um desvio à cobrança do pedágio. A subida pelos pastos foi dura. Os degraus que víamos a distância se tornavam muros a nossa frente. A vegetação seca porém resistente dificultava nossa ascensão. Passados esses obstáculos encontramos uma vegetação rasteira e dessa vez moscas nos atazanavam. Algumas horas depois, nos reunimos com o pessoal no acampamento Huatiac.



No sexto dia o desvio ficou por conta de Wayne e Alan que chegaram mais próximo ao pico Diablo Mudo. Passamos pelo tranquilo Punta Tapush a 4800m e acampamos em Qashpapampa, um dia bem curto.

Na madrugada Leire e Santi atacaram o cume do Diablo Mudo com o guia Marco, enquanto eu, os irlandeses e Toño fomos complicar o caminho para a Jahuacocha por uma passagem alternativa a Punta Yaucha. Subimos mais à direita da passagem normal e tivemos uma vista fantástica da Cordilheira.


A Cordilheira Huayhuash desde Rondoy ao Diablo Mudo

A descida ao acampamento Jahuacocha foi tranquila. O acampamento fica às margens da lagoa com os picos Rondoy, Jirishanca e o grande Yerupajá ao fundo. De lá já conhecia o caminho de volta a Llamac, onde pegamos o ônibus para Huaraz.



Finalizamos o circuito em oito dias, com muitas fotos e histórias para contar que vão além do caminho normal. A Cordilheira Huayhuash proporciona amplas vistas, lagoas ofuscantes, magníficas escaladas em gelo e um contato com a vida rural andina do Peru.


A comunidade Huayhuash

20 de setembro de 2010

A Grande Escalada - O Alpamayo pela francesa direta

- Que montanha você quer de presente? Um amigo me pergunta no meu aniversário.
Respondi: - O Alpamayo!


A bela face do Alpamayo

Um belo presente: uma parede trapezoidal de 700 metros de altura desde sua base, repleta de corredores e flautas com inclinaçao de até 90º. A rota mais popular, a ferrari, está fechada por perigo de quedas de seracs. A única opçao com um nível de dificuldade maior é a francesa direta. Fechamos um grupo internacional: Miha, esloveno, e o francês Yann.


Entrada do vale Santa Cruz

Após um dia de compras em Huaraz, partimos em um dos colectivos e contratamos burros em Cashapampa. Os dois primeiros dias sao tranquilos, aumentando a altitude lentamente pelo vale Santa Cruz. A vegetaçao muda das árvores aos espinhosos cactos, das cachoeiras a plácidos lagos, sempre beirando o rio.

No acampamento base fizemos os preparativos para a escalada. Levaríamos somente o essencial, apesar de ser quase tudo. Há grupos que fazem um acampamento intermediário antes de do glaciar, o morena. Nosso plano era alcançar o acampamento glaciar em apenas um dia atravessando o colo a 5400m, sao mais de mil metros de desnível com a mochila pesada pelos equipamentos de escalada, barraca e comida para alguns dias.

A subida do acampamento base para o glaciar foi dura, mais de sete horas parede acima. Chegamos no colo mortos de cansaço, mas a visao extasiante da parede substituiu qualquer sentimento no primeiro momento. No segundo, o temor tomou conta dos meus pensamentos.

Havia uma barraca um pouco abaixo do colo, onde resolvemos acampar. A barraca era de uns poloneses que retornavam de uma tentativa do Quitaraju. Armamos a barraca a 5.300 metros e preparamos água e comida. Havia algumas nuvens e torcia baixinho para que o tempo permanecesse fechado.
As duas horas da manha o alarme começa a disparar. Miha saiu da barraca e esperei o veredito, para confirmar meus temores o céu estava estrelado e escutei: - vamos escalar!

Para alcançar o "bergschrund", a primeira grande greta, subimos por uma neve fofa. Miha acabou deixando Yann guiar levando as duas pontas das cordas. Miha foi em seguida, na minha vez... Travei um tempo com uma perna de cada lado da fenda mas consegui subir para a parede. Quando ainda me recuperava para continuar, senti umas puxadas. Devo ter demorado um bocado, pois quando ainda tentava subir, os meninos me puxaram para cima.
De lá, foram cordadas intermináveis corredor acima. O gelo estava bom para escalar. Amanheceu perto da quinta cordada colorindo o horizonte e iluminando os picos ao redor. Avistamos os pontos escuros das barracas no acampamento.



O cansaço e a inclinação aumentavam conforme o tempo ia passando. Meu pescoço tombava cada vez mais para trás para ver Yann escalando. Estávamos perto do fim quando as piquetas começaram a ter dificuldade para firmar: gelo duro. Parece que foi nesse ponto que um argentino escalando solo caiu, rolando para a morte canaleta abaixo duas semanas atrás.



Na última parte não víamos mais o fim. Miha, que dava segurança a Yann, sentiu a corda correr mais rápido e disse: ele chegou.
Escalamos até o coração vir na boca, era o último esforço. Enfim, recuperamos o fôlego ao lado de Yann que já sorria. Cume!


Foram seis horas de escalada. As nuvens começaram a dominar o espaço e tínhamos janelas de vistas intermitentes. Curtimos o cume estreito e ondulado formado por cornisas.



A descida foram séries de rapel. Cansados, chegamos no acampamento e desabamos. Cozinhei macarrao instantâneo com chorizo que foi devorado. Mesmo sem muitas forças, resolvemos descer a passar mais uma noite gelada no glaciar. No final da tarde chegávamos ao acampamento base nem tanto saos, mas salvos.

1 de setembro de 2010

A Linda Vista da Cordilheira Blanca


Tinha alguns dias para a tentativa do grande Huascaran, ao invés de pastar em Huaraz arrumei minha mochila e parti para uma montanha nos arredores chamada Vallunaraju.
Nao tinha perspectivas, acabou sendo uma bela surpresa de uma das vistas mais bonitas da Cordilheira Blanca.

Peguei uma carona em uma van que iria buscar um grupo do AndreanKingdom no acampamento base. No posto de controle o guarda verificou que meu passaporte havia vencido e paguei meu segundo ingresso para o Parque Huascaran, válido por mais um mês.

A subida já começa empinada, por uma fenda da grande formaçao rochosa. Cruzo com Zé Carlos e Alessandro, dois amigos paulistas que me avisam que a subida é forte, mas depois ameniza.
A mochila estava pesada com as botas de plástico dentro, preço de caminhar confortavelmente com as botas de couro.
Depois de pouco mais de duas horas, as barracas do acampamento aparecem em pequenos platôs. Por ser uma montanha próxima a Huaraz facilitando a logística, é bastante popular.
Encontro com Wanderlei, outro brasileiro que havia conhecido em outra Quebrada, literalmente, e seu guia Marco. Acabei me unindo a eles nessa escalada.
O pôr do sol de frente para o vale foi lindo com as cores gradualmente se esvaecendo, anunciando o que estava por vir.


Partimos as três horas da manha observando as estrelas cadentes que riscavam o céu. Amanheceu e o azul permaneceu limpo iluminando laranja os picos do Huascaran à esquerda e o belo Huantsan à direita da nossa rampa para o cume.



Perto das nove horas da manha caminhávamos no aclive final. A curvatura do cume foi se abaixando revelando a vista fantástica da Cordilheira Blanca. Por estar afastada da linha central, mais próximo ao vale de Huaraz, Vallunaraju tem uma vista privilegiada tal qual também a sorte de ter um dia com o céu tao limpo.


Descemos para o acampamento, desmontamos barracas e no final da tarde regressávamos para Huaraz.
Dois dias, ida e volta para Huaraz proporcionou uma escalada tranquila e uma vista espetacular dos picos nevados.

18 de agosto de 2010

O Frio, o Vento e a Nevasca

Planejava escalar o Ishinca, acordei as 2 horas da manha, abri os zíperes da barraca e nao gostei nada do que vi. As montanhas estavam com nuvens no meio da noite o que nao era bom sinal.

Normalmente, na temporada, a noite permanece limpa, cheia de estrelas ou iluminada pelo luar com o eterno frio intenso de altitude. Durante o dia, as nuvens comecam a aparecer na metade da manha e desaparecem no final da tarde, isso quando elas insistem em aparecer.

Voltei a dormir.

Acordei pela manha e uma sueca me disse que poderia subir o Urus durante o dia. Coloquei as botas, peguei o kit ataque com comida e água, e parti.


Flores a 5000m de altitude

A Quebrada Ishinca abriga o acampamento base para montanhas como Urus e Ishinca que podem ser feitas em um dia e Tocllaraju e Ranrapalca com um nível de dificuldade superior.


Quebradas sao vales, utilizados para a aproximacao das rotas de escaladas ou para caminhadas como Quebrada Santa Cruz, vale da famosa caminhada homônima.

Urus Leste 5420m



A subida é bem íngreme por uma aresta da montanha. Após uma hora, alcancei dois eslovenos: Miha e Anze. Eles faziam a ascensao ao Urus para aclimatacao, como muitos. Eu, porque era melhor do que nao fazer nada...

Subimos por mais algumas horas para finalmente alcancarmos um misto de neve e rochas.
Colocamos os crampons e os trechos foram se intercalando: neve - rocha - neve, até alcancar a fase final de pura rocha.



Cinco horas de subida do acampamento base (seis para os eslovenos), chegamos ao cume com o tempo totalmente encoberto.




Tocllaraju 6032m

Conheci um ucraniano, Serguei ou Sergio para as línguas latinas, e resolvi amenizar as despesas dele com o guia que havia contratado para escalar o Tocllaraju.
A montanha é linda, piramidal com uma cornisa enorme em seu cume.

Arrumei a mochila para dois dias e partimos tranquilamente as dez horas da manha.



A subida comeca beirando o rio que desce da glaciar do Tocllaraju, depois a trilha vira para a esquerda por um zigue e zague morena acima. Quanto mais subimos, maiores as pedras se tornam e o equilíbrio usando as botas rígidas de plástico é fundamental.
Caminhamos por tres horas e meia desde o acampamento base para chegar no acampamento morena.



Sergio preferiu acampar ali mesmo, o que acabou sendo uma boa decisao. Um grupo continuou a caminhada em direcao a um acampamento superior distante a menos de uma hora glaciar acima.
Descansamos, comemos, tiramos fotos e finalizamos a mamata com um delicioso chá marroquino que Sergio tinha trazido na bagagem.



Eu, com receio da montanha e por acampar um pouco mais baixo, sugeri para sairmos um pouco mais cedo, a 1 hora da manha. Nao era mais uma escalada básica, o Tocllaraju tem um nível de dificuldade classificado como D, devido a sua piramide final.


Comecamos a escalada por rampas cuja inclinacao fica em torno dos 40 graus. Cruzamos e saltamos gretas sem enxergar o perigo que passávamos. No meio do caminho há uma parede de uns cinco metros com inclinacao de 70 graus, para alcancá-la passei um sufoco... A fissura abaixo sem fim deixa qualquer um tenso. Essa hora, meus dedos congelaram e na volta de circulacao do sangue, chorei de dor.
As subidas foram intermináveis, parando apenas para recuperar a respiracao. De repente... um estrondo! Avalanche! Parece que ocorreu um pouco mais atrás, nao dava para saber ao certo com a escuridao. Um pouco mais acima... De novo! Dessa vez ao nosso lado, com certeza!
Chegamos na piramide final amanhecendo. Com inclinacao em torno dos 50-60 graus foram uns vinte metros escalando com meu piolet de marcha.



Chegamos ao cume com vista limpa para os nevados Copa, Huascaran, Chopicalqui entre outros. O vento e o frio nao deixou que ficássemos muito tempo apesar de sermos os únicos que chegaram ali naquele dia.



Na descida, a tormenta. Um vento tao forte que me derrubou duas vezes durante a caminhada de volta! Chamuscando de neve nossos míseros corpos, congelando os ossos, descemos a montanha nessa nevasca intermitente.

Agradeci ao chegar no acampamento morena, apesar do meu nariz congestionar totalmente. Parecia que estava em um sistema de descongelamento. Voltamos para o acampamento base e no dia seguinte para Huaraz, onde passei os dias me recuperando do episódio.